quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Lenda do tambor africano

Dizem na Guiné que a primeira viagem à Lua foi feita pelo Macaquinho de nariz branco. Segundo dizem, certo dia, os macaquinhos de nariz branco resolveram fazer uma viagem à Lua a fim de traze-la para a Terra. Após tanto tentar subir, sem nenhum sucesso, um deles, dizem que o menor, teve a idéia de subirem uns por cima dos outros, até que um deles conseguiu chegar à Lua.

Porém, a pilha de macacos desmoronou e todos caíram, menos o menor, que ficou pendurado na Lua. Esta lhe deu a mão e o ajudou a subir. A Lua gostou tanto dele que lhe ofereceu, como regalo, um tamborinho. O macaquinho foi ficando por lá, até que começou a sentir saudades de casa e resolveu pedir à Lua que o deixasse voltar.

A Lua o amarrou ao tamborinho para descê-lo pela corda, pedindo a ele que não tocasse antes de chegar à Terra e, assim que chegasse, tocasse bem forte para que ela cortasse o fio.
O Macaquinho foi descendo feliz da vida, mas na metade do caminho, não resistiu e tocou o tamborinho. Ao ouvir o som do tambor a Lua pensou que o Macaquinho houvesse chegado à Terra e cortou a corda. O Macaquinho caiu e, antes de morrer, ainda pode dizer a uma moça que o encontrou, que aquilo que ele tinha era um tamborinho, que deveria ser entregue aos homens do seu país. A moça foi logo contar a todos sobre o ocorrido.
Vieram pessoas de todo o país e, naquela terra africana, ouviam-se os primeiros sons de tambor.

 
 

domingo, 12 de outubro de 2014

Manuel Bandeira, "O Bicho" (1947)



Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
                                                 
         

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Recado de Primavera -Rubem Braga


Meu caro Vinicius de Moraes:
Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.


O sinal mais humilde da chegada da Primavera vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que se aproximava, muito matreiro, um pássaro-preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ele pôr seus ovos.
Isto é uma história tão antiga que parece que só podia acontecer lá no fundo da roça, talvez no tempo do Império. Pois está acontecendo aqui em Ipanema, em minha casa, poeta. Acontecendo como a Primavera. Estive em Blumenau, onde há moitas de azaléias e manacás em flor; e em cada mocinha loira, uma esperança de Vera Fischer. Agora vou ao Maranhão, reino de Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos. O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui — a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.
 
Setembro, 1980
 
Nota: Vinícius faleceu em Julho de 1980.

domingo, 7 de setembro de 2014

A Gaiola de Ouro

 
Todas as manhãs o rei acordava e tomava café da manhã em sua varanda.

A partir de certa ocasião, o rei passou a perceber a presença de um belo e colorido pássaro que parecia esperá-lo, todas as manhãs, para começar o seu canto magistral.

Numa das manhãs, o rei decidiu perguntar ao pássaro se ele desejava possuir uma gaiola. O rei lhe disse que seria uma gaiola enorme e feita de ouro; e que ele ordenaria para que todos os dias ela fosse totalmente limpa, tivesse a água e os alimentos trocados e que, se houvesse sol excessivo, que ela fosse coberta.

O rei ainda ressaltou ao pássaro que, com a gaiola, ele nunca mais teria que buscar seus alimentos ou defender-se das aves maiores, pois ali estaria totalmente protegido e seguro. Além disso, muitas pessoas passariam diariamente pela gaiola e poderiam apreciar o colorido de suas penas e a beleza do seu canto.

O pássaro ficava claramente entusiasmado à medida que o rei descrevia como a vida seria melhor com a gaiola que estava sendo imaginada. Num determinado instante, porém, o rei percebeu que o pássaro virou sua cabeça em direção a uma outra ave, que se encontrava no galho de uma árvore próxima e parecia ter acompanhado toda a conversa, quando o pássaro disse:

¾ “Mamãe, o que a senhora acha? Aceito a proposta do rei?”.

A outra ave sorriu e balançou a cabeça, como que concordando com o que ouvira.

Imediatamente, o pássaro aceitou a proposta do rei e, em dois dias, uma grande gaiola já estava construída, onde o pássaro passou a habitar.

Tudo estava maravilhoso, exatamente como o rei havia descrito!

Passados alguns meses, entretanto, o pássaro passou a ficar ansioso. Na verdade não queria mais ficar ali, limitado àquelas grades. Tinha comida e água a vontade, bem como o carinho dos funcionários, dos visitantes e, em especial, do simpático e afetuoso rei. Porém, decididamente não se encontrava satisfeito e estava aos poucos perdendo a disposição e a alegria de viver, que antes possuía. Em pouco tempo deixou de cantar e já não se alimentava direito.

Passou então a pensar em sair dali de alguma maneira. Ele poderia falar com o rei, mas ficou receoso de que ele se entristecesse e não o permitisse sair. Imaginou contar para sua mãe, que habitualmente pousava em uma árvore próxima, mas ficou com medo da reação dela, que parecia sentir-se orgulhosa pelas benesses que seu filho recebia na gaiola.  Naquela noite, o pássaro ficou muito triste e deprimido. Lágrimas caíam de seus olhinhos e ele caminhava de um lado para o outro da gaiola, mostrando-se inconsolável.

Quando o dia amanheceu, ele estava muito cansado, verdadeiramente esgotado pela terrível noite por que passara. Encostou-se então no canto da gaiola, quando percebeu que algo se moveu atrás dele.

Olhou então para trás e notou que a porta da gaiola estava aberta. Observando-a melhor, logo se deu conta de que nunca houve trava alguma que a impedisse de ser aberta. A sua liberdade, portanto, sempre esteve ali, dependendo somente... Dele mesmo!
 


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Canaã - O lugar onde vivemos - (Projeto: “Tudo é memória” )



Pra se livrar do aluguel
A coragem recomendou
Um loteamento improvisado
Sem planejamento condizente
Nem autorização dos órgãos competentes

Canaã salvou muita gente
Do perigo eminente
De residir debaixo do viaduto
Ou terminar coberto de luto

Mesmo tendo poucos recursos
Mergulhados num imenso escuro
Cada um comprou um lote
Com sorteio planejado
Nosso bairro foi loteado

Cada dono ao receber
Seu lote demarcado
Iniciou seu trabalho
Pra deixar os terrenos com aparência de quadrado

E com uma pressa muito grande
Trabalhando sem parar
Cada um procurava construir
Cheio de alegria e energia
Sonhava possuir seu lar

E cada dia que passava
Mais construções se espalhavam
As paredes foram se erguendo
Colunas e alicerces
O espaço foi ocupando
E fileiras de casas foram se formando

As ruas foram abertas
Tratores, caminhões e caçambas
Subiam e desciam num trafegar incessante
Pedra cimento, cal e areia
Eram descarregados nas construções

Pedreiros e mais pedreiros
Entravem e saiam do loteamento
Num movimento eletrizante
Com colher de pedreiro e barbante
Que ajudavam os prumos deixar as paredes elegantes

Dificuldades, mais dificuldades
Foram surgindo
Emoções e contradições
Mesmo assim paredes continuaram ser erguidas
E por coberturas embutidas.

A água foi canalizada
A luz foi instalada
Canaã foi iluminada
Moradores foram chegando
E seu bairro habitando
Habitantes bem modestos
Cheios de coragem e honestos

Faltava muito para esta gente
Corajosa e descente
Foram muitos os esforços
Para conscientizar os órgãos competentes
A trazer para região
Serviços de Saúde e condução

Mas este povo valente não desistiu não
Lutou e melhorou a vida e condição
O progresso foi chegando e com ele
Aumentou ainda mais a população
Fazendo necessário mais escolas pra educação

A comunidade lutou, reivindicou e conseguiu
Uma pequena escola para seu bairro
Escola pequena, porém
Bem construída e limpinha
Escola Estadual Jardim Canaã, nossa escola do coração.

Autores:
Professora Moema de Almeida Castro
Alunos – 4ª serie B – Turma  2004
E. E. Jd.Canaã-Diretoria de Ensino Norte1
Rua Cel. José Gladiador, 79 – Morro Doce
São Paulo- SP

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O que é periferia?




Espaços em transformação

Por Mariana Sgarioni e Rafael Tonon
Geralmente, a periferia é vista pelas pessoas como um bloco único, um problema único ou uma condição única de existência. Mas a aproximação ao tema faz ver que, apesar de traços comuns, cada periferia tem sua especificidade e, dependendo do enfoque, ela pode ser um conceito relativo. Para Gilberto Dimenstein, por exemplo, um jovem de classe média alta alienado é periférico. Em contraponto, analisa o jornalista, um dos entrevistados nesta seção, um jovem periférico integrado socialmente ultrapassa seus limites geográficos.
Na opinião do psicanalista Jorge Broide, também entrevistado, os problemas enfrentados pela periferia, especialmente a violência, dificultam a circulação da palavra, expressa entre outros aspectos pela arte e pela cultura. Outro convidado a refletir sobre a periferia é o professor e pesquisador Eduardo Marques, que vê com otimismo a quebra da homogeneidade dessas populações, à medida que avançam os serviços públicos e a cidadania. Uma vontade política ampla é o primeiro passo para reverter o estigma de exclusão que paira sobre pessoas que vivem fora do centro das grandes cidades, na visão da antropóloga Rose Satiko.
No entanto, a urbanista Raquel Rolnik, cuja entrevista fecha a seção, observa que, apesar de a cultura da periferia ganhar cada vez mais espaço dentro e fora dela, sua força política foi capturada pelo jogo eleitoral. Conheça essas e outras reflexões dos especialistas convidados a debater esses espaços em transformação.

Para você, o que é periferia?
O conceito de periferia foi forjado de uma leitura da cidade surgida de um desenvolvimento urbano que se deu a partir dos anos 1980. Esse modelo de desenvolvimento privou as faixas de menor renda de condições básicas de urbanidade e de inserção efetiva à cidade. Essa talvez seja sua principal característica, migrada de uma ideia geográfica, dos loteamentos distantes do centro. Mas é preciso lembrar que a periferia é marcada muito mais pela precariedade e pela falta de assistência e de recursos do que pela localização. Hoje há condomínios de alta renda em áreas periféricas que, claro, não podem ser considerados da mesma forma que seu entorno, assim como há periferias em áreas nobres da cidade.

Que tipo de problema social a periferia representa?
O principal problema das periferias hoje está na ambiguidade constitutiva entre a cidade e seus assentamentos populares, principalmente de áreas irregulares e ilegais. Em primeiro lugar, na própria questão do pertencimento desses assentamentos à cidade: eles fazem ou não parte da cidade? A quem ela pertence? Apesar de estar no controle do aparato do Estado, há muitos lugares, como favelas urbanizadas de grandes cidades, em que as prefeituras não entram para fazer coleta de lixo ou manutenções (drenagem, limpeza de bueiros etc.), algo que é comum aos outros bairros. Essa questão é transcendente porque joga luz sobre muitos outros problemas das periferias, como a crescente violência e o controle do tráfico de drogas. Um lugar em que reina a ambiguidade é uma “terra sem dono”, onde teoricamente qualquer pessoa ou grupo pode tomar para si o seu controle. É isso que acontece, por exemplo, com o próprio tráfico.

As iniciativas que tentam integrar a periferia ao restante das grandes cidades geram resultados?
Acho que grande parte das iniciativas hoje são absolutamente fragmentadas e pontuais, uma vez que não conseguem resolver a principal questão que paira sobre a periferia, que é romper o nosso modelo de desenvolvimento econômico. As iniciativas não conseguem parar a máquina de produção da exclusão. O salário do trabalhador formal do Brasil não consegue cobrir o custo de moradia, seja em aluguel, seja na casa própria. E isso não é para uma pequena parcela da população, mas para 60%, 70% dela. Ao mesmo tempo, as políticas e os investimentos valorizam a terra, aumentam cada vez mais o seu valor. Nesse contexto, aos pobres resta morar onde? Por isso temos mais pessoas vivendo em áreas periféricas, sem acesso a recursos, e longe dos centros das cidades.

Qual a força da periferia em termos políticos? E no tocante à arte e à cultura?
Acredito que a força política da periferia foi capturada pelo jogo político e eleitoral. O poder político ainda está ali – afinal, a periferia é muito representativa na medida em que faz parte de uma enorme parcela da população do país, eleitoralmente muito forte –, mas perdeu a força transformadora que tinha. Se está muito mais esvaziada em termos políticos, no entanto, também vejo a periferia muito mais forte na questão das manifestações culturais e artísticas. Muitos de seus movimentos artísticos ganharam uma expressão mais ampla do que seus próprios bairros. Eles quebraram as barreiras geográficas e se difundiram no restante da cidade, em outras cidades, em outros países. Por isso, acho que a força da periferia, hoje, está muito mais nas questões culturais do que políticas.

Como transformar o estigma de exclusão que paira sobre os moradores da periferia?
Não se trata só de um estigma de exclusão, mas de uma exclusão que é real, e não imaginária. Acho difícil romper essa imagem quando os meios de comunicação, por exemplo, mostram apenas o lado negativo das periferias, salvo raríssimas exceções. O estigma se dá quando ela é representada e mostrada pelo olhar de alguém que não vem de lá, que não vive lá, enfim, de um olhar totalmente estrangeiro sobre aquela realidade. Para minimizar essa imagem, é imprescindível dar voz também a outras questões, mostrar outras verdades. Para isso, é necessário oferecer oportunidades para que a periferia possa se mostrar da forma como gostaria.

Entrevista para a edição de junho/2010 da Revista Continuum /Itaú Cultural