sábado, 20 de outubro de 2012

O LIXO Luís Fernando Veríssimo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia
- A senhora é do 610.
 - E o senhor do 612
- É.
 - Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
 - Pois é... - Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
 - O meu quê?
 - O seu lixo.
 - Ah...
 - Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu. - Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.

 - A senhora também...
 - Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
 - É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
 - Tenho, mas não aqui.
 - No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
 - Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
 - É. Mamãe escreve todas as semanas.
 - Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
 - O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é... - No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
 - Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
 - Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
 - De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
 - Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
 - É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah. - Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
 - É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
 - Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
 - Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia
. - Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito
. - Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
 - Se eu soubesse que você ia ler...
 - Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que... - Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
 - Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
 - Jantar juntos?
- É.
 - Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
 - Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?
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